Não é a Bahia: esse é o estado brasileiro com mais fiéis da umbanda e do candomblé, segundo o IBGE
Dados do Censo 2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) quebram o imaginário comum sobre perfis religiosos no Brasil: o estado com maior proporção de adeptos de religiões de matriz africana não é a Bahia, mas sim o Rio Grande do Sul.
Segundo o levantamento, 3,2% da população gaúcha se declara praticante de umbanda ou candomblé, o maior percentual do país. O dado aparece em um cenário mais amplo de crescimento dessas religiões no Brasil, cuja participação triplicou entre 2010 e 2022.
Em nível nacional, o percentual de brasileiros que se identificam com umbanda ou candomblé passou de 0,3% em 2010 para 1% em 2022. Para especialistas do IBGE, o aumento não está necessariamente ligado a um crescimento acelerado de conversões, mas a uma maior segurança das pessoas em assumir publicamente sua fé.
“O que pode ser também é uma migração de quem se declarava espírita por ter medo ou vergonha de se declarar umbandista, se declarando desta forma neste Censo. Antes, se declaravam como católicos também”, afirma Maria Goreth Santos.
Enquanto as religiões de matriz africana avançam, o espiritismo registrou queda, passando de 2,2% para 1,8% da população no mesmo período. Já o catolicismo segue como maioria, mas atingiu o menor patamar da história (56,7%), enquanto os evangélicos chegaram ao recorde de 26,9%.
O número de brasileiros sem religião também cresceu, alcançando 9,3%.
Distribuição regional e perfil dos fiéis O levantamento mostra ainda diferenças importantes entre os estados. O Rio de Janeiro lidera na proporção de espíritas, com 3,5% da população. Entre os praticantes de umbanda e candomblé, a maioria se declara branca (42,9%), seguida por pardos (33,2%) e pretos (23,2%). Já entre os espíritas, há predominância ainda maior de pessoas brancas.
Os dados refletem transformações culturais mais amplas e um possível enfraquecimento do estigma histórico contra religiões de matriz africana no Brasil. Ainda assim, episódios de intolerância religiosa continuam sendo registrados, o que indica que o avanço na autodeclaração convive com desafios persistentes.
“Em 150 anos de recenseamento de religião, muita coisa mudou no país e na sociedade como um todo”, comenta a analista responsável pelo tema, Maria Goreth Santos, referindo-se ao primeiro Censo. “Em 1872, o recenseador deveria assinalar cada pessoa como ‘cathólico’ ou ‘acathólico’, conforme grafia da época; não havia outra opção de religiosidade”, explica Maria Goreth. “Além disso, a população escravizada era toda contada como católica, seguindo a declaração do senhor da casa”.
Evangélicos têm perfil mais jovem Embora os católicos apostólicos romanos sejam a maioria em todos os grupos de idade, sua proporção variou entre 52,0%, no grupo de 10 a 14 anos de idade, a 72,0%, no grupo de 80 anos ou mais. Entre os evangélicos, a relação é inversa: a maior proporção (31,6%) se encontra no grupo mais jovem, de 10 a 14 anos, e o grupo de 80 anos ou mais representou a menor proporção, com 19,0%. O grupo sem religião atingiu sua proporção máxima na faixa entre 20 e 24 anos (14,3%) e a mínima entre a população com 80 anos ou mais de idade (4,1%).
Na desagregação da população por cor ou raça, o Censo 2022 revelou que, entre as pessoas brancas, 60,2% se identificavam como católicas apostólicas romanas, 23,5% se identificavam como evangélicas e 8,4%, como sem religião. Pessoas com cor ou raça indígena apresentaram a maior proporção de evangélicos (32,2%), enquanto pessoas amarelas apresentaram o menor (14,3%). As maiores proporções de espíritas (3,2%), outras religiosidades (13,6%) e sem religião (16,2%) se encontram entre pessoas de cor ou raça amarela.
Já na distribuição de cada grupo religioso por cor ou raça, verificou-se que o grupo espírita era composto em sua maioria por pessoas brancas (63,8%) e pardas (26,3%). Entre os evangélicos, a maioria era de cor ou raça parda (49,1%) e apenas 0,2% eram amarelas. Entre os umbandistas e candomblecistas, os maiores percentuais eram de brancos (42,7%) e pardos (26,3%). Entre a população de tradições indígenas, 74,5% eram de pessoas de cor ou raça indígena. Entre os sem religião, os maiores percentuais estavam entre pardos (45,1%) e brancos (39,2%). (msn)